Inicialmente, o título desse post seria “Hiperinflação salarial”, mas optei por mudá-lo, já que o que vemos é mais uma disparada, meio maluca e com pouco ou nenhum controle, do que um processo inflacionário acentuado.
Nos últimos meses temos lido notícias que causam surpresa e preocupação relacionadas a salários – luvas incluídas, às vezes – de jogadores de futebol.
Surpresa, pelos valores veiculados.
Preocupação, pelos mesmos motivos, pois os valores verdadeiramente malucos irão impactar pesada e severamente as contas dos clubes.
De norte a sul fala-se de boca cheia e facilmente em “quinhentos mil mensais”, “seiscentos mil mensais”, “setecentos e cinquenta mil mensais”…
Nunca se vê nas otimistas frases de dirigentes e agentes, algo como “seis milhões por ano”, “oito milhões por ano”, “dez ou doze milhões por ano”. Não deixa de ser interessante, e muito sintomático, que todos os cálculos de receitas são expressos em valores anuais: X milhões por direitos de transmissão, Y milhões de patrocínios, Z milhões de bilheteria…
Apesar disso, na hora da despesa o ano parece não existir, somente o mês. Aliás, quem dera, quem dera! Que beleza seria se o ano inteiro se resumisse a um dezembro da vida, bem fornido em cédulas, moedas e números azuis na conta bancária. Como isso não existe, o ano com doze dezembros, quando alguém indaga de um dirigente sobre como pagar tantas fortunas mensais multiplicadas doze vezes, imediatamente o dirigente apela e responde: o “marketing”, a receita virá do marketing, teremos projetos, faremos ações de marketing que cobrirão esse custo. E o pagamento dos salários dos craques de ficção fica por conta dessa palavrinha que, supõem todos, seja capaz de operar milagres. Nesse caso, dinheiro para pagar os salários dos craques (quais?).
A realidade, porém, é diferente e tem o péssimo hábito de ser chata e cruel.
Ou não, pensando bem, a realidade tem o realista hábito de ser… real, simplesmente real.
O marketing (único) que dá certo: Neymar
Olhando o atual panorama brasileiro, vejo um jogador, um único jogador que justifica altos ganhos financeiros: Neymar. E não pelo futebol que joga hoje e sim pelo tempo de futebol que tem à frente e por estar em evolução. Claro que a bola jogada hoje justifica muita coisa, mas sem o futuro e a perspectiva de retorno, francamente, não seria o caso de rolar tanto dinheiro ao seu redor.
Parte do que ganha Neymar, entretanto, vem dos bolsos e cofres dos patrocinadores dele mesmo. A sangria nas contas do clube existe, gostem ou não os torcedores santistas, e como sentiram na pele as meninas do futebol e a rapaziada do futsal, Falcão à frente, fatos reconhecidos pelo próprio presidente do Santos, que atribuiu o encerramento das duas atividades ao “custo Neymar”.
Um pouco mais sobre Neymar: se seu futebol é único hoje, o mesmo se dá com seu carisma, personalidade e apelo popular. Neymar já é, com relativa facilidade, até, um ídolo pop. Sua intimidade com as câmeras aumenta, o que expande sua penetração junto aos diferentes segmentos de que é composta a sociedade. Ao mesmo tempo, para surpresa de muita gente, Neymar é inteligente e tem absorvido muito bem as pancadas que a vida dá e as lições que as acompanham. Assim foi com o episódio envolvendo o seu treinador da época, Dorival Jr., e o mesmo ocorreu com a descoberta e o anúncio da gravidez da qual resultou o nascimento de seu filho. Não houve subterfúgios, não houve desmentidos, o fato foi assumido e, o mais importante, e lição para muitos, o garoto foi assumido com felicidade que, ficou claro desde o primeiro momento, é real e não aparente.
Por tudo isso (e muito mais), o famoso “marketing” funciona com Neymar e funciona muito bem. Mas, somente com ele. Não veremos o mesmo, ou melhor, não veremos funcionar em igual proporção e com tão grandes retornos, com outros atletas. Independentemente de nomes e carreiras, independentemente dos clubes em que joguem. Alguns farão algum sucesso junto às suas próprias torcidas, o que é ótimo, desejável e deve ser bem aproveitado pelos clubes envolvidos, mas, repito, olhando o panorama como um todo e pensando em retorno de fato digno de nota e capaz de fazer diferença financeira a ponto de manter um jogador afastado da sedução europeia, só vejo esse astro solitário.
Para os demais, o jeito é mesmo o clube tratar de ganhar muito dinheiro com outras fontes para pagar os salários de seus “craques”. Porque a disparada de valores ultrapassou os limites do bom senso, do caixa dos clubes e da realidade de nossa economia e de nosso futebol.
E podem incluir aqui os salários de treinadores, eles também fora do mundo real, o que já foi abordado nesse Olhar Crônico Esportivo há algum tempo.

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