'Como é o Neymar?'
As pessoas da mais variadas classes sociais querem saber sobre a personalidade do melhor jogador do Brasil.
Não em campo, mas fora dele.
E não tenho boas notícias.
O meu primeiro contato com ele foi há quatro anos na TV Bandeirantes.
Participamos de um programa juntos.
Estava acompanhado por sua família e o seu empresário Wagner Ribeiro.
Tinha 15 anos.
Menino alegre, mas de personalidade firme.
Retraído, deixava seu pai e, principalmente Ribeiro, o trato com os jornalistas.
Estava nítido que os dois já tinham como meta moldar a imagem do garoto de 15 anos.
Desde então, nos afastamos.
E pude acompanhar maravilhado tudo o que Neymar fazia em campo.
Jogadas espetaculares.
Falei com Dorival Júnior e ele o considerava o mais talentoso prodígio que caiu nas suas mãos.
E o tratava como um filho.
Conversei com dirigentes, assessores.
Estavam entusiasmados com seu talento.
Estranhava porque não queriam entrar a fundo sobre sua personalidade.
Fui entender depois.
Jornalistas que frequentam o dia-a-dia da Vila Belmiro me diziam sobre a influência de Robinho.
O jogador nunca foi um exemplo de simpatia ou cordialidade fora do campo.
Mas acabou sendo a principal referência.
Justo na transição no início da carreira de Neymar como titular do Santos.
Aos poucos surgiram as primeiras indisciplinas.
A maior foi ter chegado de madrugada na concentração santista.
Ele, Ganso, André e Madson, às três horas da manhã.
A diretoria deu guarida às três promessas e colocou toda a culpa em Madson.
Era mais fácil.
Ele acabou banido da Vila Belmiro.
Era maio do ano passado, e muitos clamavam por Neymar e Ganso na Seleção.
Foi uma grande decepção.
Maior ainda viria em setembro.
Depois de ser acusado por marcadores de os xingar e esnobar seu alto salário...
Veio o jogo contra o Atlético Goianiense.
Dorival não deixou que cobrasse um pênalti.
Foi o que bastou.
De tanto ouvir sim, Neymar não suportou um não.
E fez um escândalo impressionante.
A diretoria santista lhe deu toda a razão e demitiu Dorival.
Absurda atitude protecionista.
"Estamos criando um monstro no futebol brasileiro", resumiu René Simões.
Adilson Batista assumiu o Santos e cometeu o pecado de fazer Neymar marcar.
Correr atrás de volantes adversários.
Os péssimos resultados não pesaram tanto quanto mexer com Neymar.
A demissão foi dada com gosto.
A esta altura, os representantes do Real Madrid e do Barcelona já duelavam por ele.
Até porque o jovem atacante havia avisado que no Chelsea não jogaria de jeito nenhum.
Não queria saber do truculento futebol inglês.
Conselho de Robinho.
A evolução dos seus salários é espantosa e mexeria com a cabeça de qualquer pessoa.
Como não se sentir um enviado dos Céus?
Com 15 anos, ganhava R$ 48 mil.
Aos 16, nada menos do que R$ 80 mil.
Já com 17, R$ 135 mil.
Aos 18, R$ 500 mil.
E agora, aos 19, R$ 3 milhões.
São nove patrocinadores e mais três na fila para 2012.
O governo federal o quer como garoto propaganda para a Copa do Mundo de 2014.
A idéia é da própria Dilma.
Ela quer o sorriso forçado de Neymar.
Espera diminuir a rejeição e a marca da corrupção da competição.
Mulheres não saem dos pés do jogador.
Onde vai é tratado como um Beatle.
Mesmo vestido como um pagodeiro.
Neymar teve, porém, muita dignidade ao assumir um inesperado filho.
O plano de carreira traçado por Luís Álvaro deu certo.
Neymar é conhecido no mundo todo.
Pude constatar a sua idolatra.
Milhares de japoneses compraram uma peruca imitando imitando o corte moicano.
E foram com ela orgulhosos para o Yokohama Stadium para a final contra o Barcelona.
Nem o vexame do 4 a 0 fez com que os dirigentes do time catalão desistisse de contratá-lo.
Pelo contrário.
Estão se aproximando para levá-lo para lá.
E ele quer ir.
Outro conselho de Robinho.
O ídolo do jogador acredita ter sido 'queimado' no Real Madrid.
Mas tenho de voltar à pergunta que tenho respondido sobre Neymar.
No Japão tive contato com a estratégia santista para criar a imagem do jogador.
Ele tem gerente de carreira, gerente de marketing, assessor especial que fala quatro línguas...
Estilista, fonoaudióloga e os conselhos de Ronaldo na 9ine.
Tudo isso só para que mostre ao mundo ser especial também fora do campo.
Mas não foi o que eu vi.
Estava acompanhado do repórter Samir Carvalho.
Chegávamos na concentração santista em Yokohama.
Quando demos de cara com Neymar e Elano saindo do hotel Bay Sheraton.
Ele não nos viu.
Sem segurança, queriam ir a um shopping.
Fãs japoneses o cercaram e imploraram por autógrafos e fotografias.
Principalmente de Neymar.
Ele ficou transtornado.
Gritou, afastou uma fã mais insistente.
Tentou andar, até que se cansou.
E gritou a plenos pulmões "Puta que o pariu" e voltou para o hotel.
Os japoneses ficaram atônicos.
Não pelo palavrão, que não entenderam.
Mas pela atitude grosseira.
Toda a desventura foi capturada, filmada pelo celular de Samir.
A cena é deprimente.
Mas inexplicavelmente acabou cortada.
O palavrão sumiu.
Ótimo para quem não viu e ainda idolatra o atacante.
Preserva o riquíssimo mercado oriental.
Pensei na hora em todo o cuidado da assessoria do clube.
Imaginei a frustração que seria essa cena divulgada em todo mundo.
Dezenas de cds com os gols do jogador foram distribuídos a jornalistas do mundo todo.
Tive acesso a um.
Nele está a foto de Neymar autografada.
Ao lado do autógrafo está escrito Jesus Cristo.
Neymar frequenta igrejas evangélicas e contribui para instituições de caridade.
Não combina.
Do lado jornalístico, outra decepção.
Infelizmente, percebi que ele faz como Ronaldo fazia.
Procura o microfone da TV Globo para dar sua melhor declaração.
Não importa o repórter, ele vai atrás do logotipo.
Com os demais veículos de comunicação, ele é outro.
E ontem na Bahia, outra vez, Neymar foi ríspido, irritadiço com os repórteres.
Como se não soubesse que sua atitude ficasse apenas em Salvador.
O Brasil inteiro soube de mais um ataque de estrelismo.
Depois, o pior.
A acusação de que recebeu R$ 200 mil pelo jogo beneficente na Bahia.
É o fim...
Quanto à resposta que as pessoas mais próximas me cobram, sou sincero.
Brincava no blog, ironizando o assédio e a atitude que considerava falsa, artificial.
O tratava por Justin Bieber do Suarão.
Mas depois do que vi no Japão, não há o que brincar com Neymar.
Ele é o mais talentoso jogador do País.
Será um dos maiores do mundo.
É um privilégio vê-lo com a bola nos pés.
Mas, infelizmente, nunca vi jogador mais arrogante, temperamental.
Tenho 25 anos de carreira.
Seis anos a mais do que ele tem de vida.
Não esquecerei jamais a frustração dos torcedores japoneses.
Quando Neymar pensou que não tivesse câmera ou jornalista nenhum por perto.
Por isso, o melhor para o torcedor é ter na mente suas jogadas maravilhosas.
Os dribles sensacionais, empolgantes.
Porque nem mesmo o exército que tem para moldar sua imagem é capaz de milagres.
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